NUE no Baú: 24

23 fev

2001 -2010

Comigo em mais um retorno às séries que não tem mais episódios novos? As saudades de hoje vão para: 24.
Exibida na Globo (tv aberta) de madrugada sob o título 24 Horas e na Fox (tv fechada) sob o título… 24 Horas, 24 vem de 2001 e bem correspondeu àqueles que queriam um super herói – ou melhor, um herói americano (e cá estou eu recomendando uma série do tipo – prometo só bons highlights neste flashback). Não à toa, o atentado terrorista que serve de estopim à primeira temporada série remete ao 11/11, e teve cenas editadas justamente por isso. O agente ligado ao atentado fictício trabalha na CTU, Unidade Contra Terrorismo, e atende pelo nome de Jack Bauer. Ao longo de 8 temporadas acompanharemos o quanto este homem desfaz toda sua família e sua vida através dos sacrifícios que fizeram-no errante. Em termos de missões e de como lidar com elas, Jack é definitivamente o McGyver hardcore do nosso século, um direto concorrente de Chuck Norris: já matou um homem com uma mordida no pescoço (sério), já foi torturado até a morte – e ressuscitou -, já se viciou em heroína, já arrancou a cabeça de criminoso e usou como isca… Ou seja: se fodeu muito, mas deu um jeito de acabar com os terroristas no final.
“Events Occur in Real Time”
24 tem uma linha narrativa singular: cada um dos 24 episódios da temporada corresponde a uma hora, fechando um dia por ciclo. Fórmula obviamente esgotável – é um milagre que tenha durado oito anos – mas explorada à exaustão por roteiristas amantes de twists, ótimas cenas de ação e fantásticas traições. Evidente que um longo vácuo ficava entre um Dia e outro; exemplificando: há um ano e meio de intervalo entre o Dia 1 e o Dia 2 (primeira e segunda temporada), cabendo a nós preencher o que aconteceu com os personagens naquele meio tempo. Aliás, tempo é a palavra chave: um relógio periclitante surge o tempo todo e fecha os episódios sempre com um bom cliffhanger, daqueles chocantes (e absurdos, claro). Além disso, a sensação de urgência só cresce com um sistema de divisão de telas que mostra a mesma cena simultaneamente ou mostra o que personagens diferentes em lugares diferentes estão fazendo naquele momento – se é difícil entender lendo, imagina como é pra escrever, filmar, editar e produzir tudo isso.
As críticas, claro, ficam para o fato dos personagens nãocomeremnãoiremaobanheironãocuidaremdahigiene & nãodormirem. Sim, 24é uma série que precisa de licença poética para ser creditada – pense que cada episódio tem 43 minutos para mostrar uma hora, considere os intervalos como pausa dos personagens para o café e o xixi e, num cenário em que sua vida está em risco a cada cinco minutos, dormir é mesmo complicado.
O que eu acho? Que a primeira temporada é, sim, obrigatória para os fãs de séries em geral. Impecável do início até o fim – trilha sonora apropriada, edição nunca confusa, personagens com bom apelo e simpatizáveis (deixo o maniqueísmo pra depois) – esse Dia 1 tem uma das melhores reviravoltas de todas, que é entregue somente nos últimos segundos do penúltimo episódio – tornando, sim, o clímax todo para o season finale e deixando quem assiste com o gosto mais amargo do mundo, mas a certeza de ter acompanhado algo bem executado. Vingança é ou não um bom prato para se comer frio?
É assistir pra ver.
Personagens
Jack Bauer, interpretado com louvor pelo mal comportado Kiefer Sutherland, já dispensa comentários – é o motriz da série, aparecendo e guiando todos os episódios -, então vamos àqueles que interessam. Coisa muito difícil, é claro, numa série que só tem um dia por temporada e intervalos de anos entre elas sofre de rotatividade de personagens. Não vou entregar o destino de ninguém ao longo da série – e acredite, tudo, tudo mesmo, pode acontecer com qualquer um deles. Como eu disse, até o próprio Jack já morreu uma vez. Risos.
Mas, como tudo gira em torno de Bauer, temos sua esposa e filha, Teri e Kim, como o lado mais humano de sua vida e que se metem em vários problemas, seja por burrice ou por mero parentesco com o azar. Kim Bauer, interpretada por Elisha Cuthbert, foi eleita (por mim, não se enganem) a personagem mais chata da série, sobretudo na twist do Dia 3 “papai-quero-trabalhar-com-você” e em seu tino para situações absurdas na segunda temporada. Outro que acaba se tornando família para Jack é o personagem do grandalhão David Palmer (Dennis Heybert): primeiro candidato negro à presidência dos EUA quando você nem sabia quem era Barack Obama. Palmer é praticamente o segundo protagonista da série (existe isso?), porque todas as cheiradíssimas tramas políticas correm em torno dele (vocês vão entender o termo “cheiradíssima” quando conhecerem sua esposa). O contraste com Palmer é perfeito quando a lembrança está em Charles Logan, político covarde muito bem interpretado por Gregory Itzin. Aliás, Logan tem uma esposa, Martha, a Louca (Jean Smart, “a louca” fica por minha conta), e os dois surgem apenas na quinta temporada – segurando a onda tão bem que ficam quase recorrentes nas temporadas seguintes.
Já os vilões da série – os terroristas – são assim: seres humanos unidimensionais dotados de ódio e sangue nos olhos que, com recursos e ideias mirabolantes, já não vale tanto a minha fala – a exceção mora nos grandes vilões da primeira temporada, a famíla Drazen,  que contava com a sensata exatidão de Denis Hopper e a costumeira excelência de Željko Ivanek, que conferem maior realidade e complexidade e fazem você pensar: “é, poderia ter acontecido”. É a contrapartida do modo criativo de se contar uma história inteira num dia só: não dá pra explorar personagens.
A não ser que eles durem mais tempo. na UCT, os agentes Nina Meyers (Sarah Clarke, linda e poderosa), Tony Almeida (Carlos Bernard, suspiros), Michelle Dessler (Reiko Aylesworth, simpática) e Chloe O’Brian (Mary Lynn Rajskub, que tomou o lugar de Dennis Hayber como segundo protagonista, se é que isso existe) são, das formas mais obtusas, amigos e inimigos de Jack. Tudo por conta do verdadeiro grande vilão de 24, o que atrapalha sempre os planos de Jack e bota as pessoas que confia para apunhalar suas costas:
A Burocracia
Jack não hesita. É impulsivo. Daqueles que acredita que os fins justificam os meios e que, sempre, tem o resultado esperado (mesmo que para isso ele precise ficar anos sendo torturado na China, acontece). Jack tortura quando acha necessário arrancar uma informação de alguém, ele também amputa braços alheios quando é pra salvar a vida de mais gente e até mesmo ajuda a explodir a agência em que trabalha. É claro que isso tudo tem um custo – é fora da lei, gente! – e que um monte de chefes acima dele fica contra seus métodos. Tudo bem: esse impasse entre o certo e o errado renderam as mais memoráveis falas:
“Esse é o problema com pessoas como você: querem resultados, mas nunca querem sujar as mãos. Vou precisar de uma serra”. (nas cenas seguintes, Jack corta a cabeça do cara e entrega a um criminoso para restabelecer contato)
“Sim, estou mentindo, mas você vai ter que confiar em mim” (e aí a esposa e a filha burríssimas se lascam todas)
“Eu sinto muito” (e atira na nuca de um cara de joelhos)
“Damn it!” (sem tradução que faça jus, mas que aparece pelo menos uma vez em cada episódio).
Às favas com a realidade

Depois de (obrigatoriamente, gente!) assistir ao Dia 1 – crível e impecável, importante reforçar – você tem um arsenal de desastres para acompanhar. Com um pouco de paciência – e tempo – vale assistir: o Dia 2 conta com uma bomba atômica explodindo em Los Angeles, no Dia 3 um vírus que mata em horas está diretamente ligado com traficantes mexicanos, no Dia 4 Jack faz crossover com A Múmia: Tumba do Imperador Dragão, Dia 5 tem um dos inícios de temporada mais chocantes da série e uma chance de Terceira Guerra Mundial com… russos, Dia 6 é perigosíssimo e ruim pra caramba – ainda que trate do passado de Jack com seu pai -, o Dia 7 tem um reboot total, apresentando outros agentes e novos vilões antigos e o último dia, o 8, se passa em Nova York (e isso é o máximo de emoção que se pode oferecer, sério).
Não há muito de real aí, então se você procura por isso deveria assistir Lost ou Twin Peaks. Tô brincando. 24 serve àqueles que gostam de gastar seu tempo sem ligar para o reloginho no próprio pulso: são só explosões, vilões bacanas, ações impensáveis e aquela sensação boa de compensação quando Jack pega os bad guys reis da filhasdaputagem. Jack fez isso até em Sangala (risos), na África. Naquele episódio, um filme pra televisão chamado “24: Redemption” que antecede a sétima temporada, Jack se encontra no meio de um golpe militar e precisa salvar um refém importantíssimo para os EUA. Loucura.
O importante é que, com tudo isso o que há de mirabolante, 24 parece nunca ter se levado realmente a sério: o mérito, aqui, é levar a história até as últimas consequências. Os próprios criadores da série, Joel Surnow e Robert Cochran, resumiram bem o espírito da série: “always bad, never bored”. Com um roteiro que era escrito enquanto a série era transmitida, eles tinham lá boa consciência e bom termômetro…
24 vai para os cinemas do mundo todo no ano que vem, sem tempo real, sem uma boa história, só Jack Bauer e um vilão para dar mãos às burocracias que impedem nosso herói de degolar o atendente do McDonald’s que cobrou o preço errado. Eita, Mal vejo a hora.

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