NUE no Baú: Felicity

13 fev

1998 - 2002

As brincadeiras com o chamado espaço-tempo feitas por J.J. Abrams – o rapaz aparentemente inofensivo por trás de seus óculos de acetato, que criou séries poderosas como “Fringe”, “Lost” e a mais recente (se inofensiva ou não, início de temporada dirá) “Alcatraz” – não se iniciaram com o boom que levou Lost ao rol de séries mais comentadas e importantes do novo século. Há quase dez anos atrás – dois anos antes da premier que derrubou o voo 815 da Oceanic Airlines – Abrams já experimentava ideias de viagem temporal com o final de sua série mais melancólica: Felicity. A série estreou em 1998 e durou quatro temporadas, uma para cada ano de faculdade cursado pela jovem homônima ao título da série, interpretada pela agradável Keri Russel.

Por que (re)assistirFelicity? Olha, supondo que o J.J. Abrams é provavelmente o Midas mais bonito da cidade enquanto esse texto aqui é escrito, vale acompanhar uma de suas primeiras ideias, para dar um highlight naquilo que estaria protagonizando os próximos anos, séries e filmes de Abrams ou pagar de conhecedor pedante de séries antigas nas próximas rodas de conversa ou simplesmente ver uma série que ensina direitinho a sentir saudades de algo que não vivi ou evitava viver.

Inteirados ou não do que estou falando, lá vamos nós: Felicity.

O ponto de partida ~ A jovem Felicity, de cabelos longos e muito cacheados (isso é de fato importante), largou todos os planos traçados por seus pais no dia da formatura do segundo grau. Ela ia pra Universidade de Stanford, cursar medicina, até que, no fim da formatura, ela enxerga a maior crush de sua vida: Ben Covington (o suspirante Scott Speedman). “Gostaria que tivéssemos nos conhecido antes”, escreve Ben após Felicity entregar seu anuário para ele, num gesto vacilante. “Pra que faculdade você vai?”, “Nova York”, anuncia Ben e, assim, na ingenuidade, Felicity muda todos os seus planos, contraria seus pais e vai para Nova York em busca de Ben. Acompanhe com pouca incredulidade o quão Felicity conheceu o meme Forever Alone ao chegar em Nova York e perceber que Ben não faz a menor ideia de quem ela é; restando à garota lidar com a própria escolha, fazer novos amigos e aprender a viver sozinha numa Nova York fria e desconhecida, distante daquela que veríamos em, sei lá, Gossip Girl. É interessante perceber como Felicity nunca está destacada entre a multidão de Nova York, apesar de parecer absolutamente deslocada, com seu cabelão, suas roupas mais largas, seu olhar perdido para os lados, a inocência ao interagir com gente muito diferente dela. A graça de Felicity reside no fato de ser uma série sobre a transição adolescente-adulto, sobre estar na faculdade e ter dramas de vinte e poucos anos. Se estabelecendo como uma história de encontros e desencontros, mas com o primor que falta às séries de términos e reatas de namoro, Felicity apresenta um drama que permeou a série inteira – o que nos leva ao próximo tópico.

Ben/Felicity/Noel ~ De longe um dos triângulos amorosos mais bem trabalhados das séries e que segurou o coração da gente durante quatro temporadas sem jamais encher o saco. Os sentimentos de Felicity são muito humanos, porque ela erra, repara, tenta consertar, falha, acerta. A moça que trocou de planos por causa de uma ilusão com um rapaz vai pro outro lado do país e conhece outro rapaz que arrasta um táxi amarelo com os dentes por ela, e… E aí? Ben é seu primeiro amor, algo selvagem e moleque, displicente a ela, enquanto Noel, mais velho e centrado, se demonstra apaixonadésimo por Felicity. Aí mora o principal motor da série: trabalhando como uma fábrica de epifanias de amor e de vida (abusando do slow motion), a série procura seguir a linha de raciocínio que faz Felicity pender entre um, outro e nenhum, guiando sua vida de acordo com isso.

Fitas K7 ~ As fitas K7 que me refiro são a chave para as tais epifanias da série. Não raramente, os episódios de Felicity começam e terminam com a menina gravando sua voz numa fitinha que será enviada por correio (how retrô is that!) para sua amiga e mentora, Sally Reardon. Servindo como uma boa saída para construção da história do episódio, a voz em off de Felicity – e as de Sally, que sempre enviava resposta – sempre davam um morninho gostoso no coração no fim dos episódios. Fato que essa dinâmica entre Felicity e a amiga só funcionaria como realidade em 1998, quando mp3, celulares com gravador e o peer-to-peer só engatinhavam no mundo (tanto que ao longo da série o artifício dessas correspondências foi deixado de lado), mas tudo bem: é uma série em que um PS2 era celebrado, ou um daqueles monitores/PCs coloridos e gigantes da Apple eram vistos como a enviados do futuro da tecnologia. Algumas coisas acabam naturalmente se… datando, e tudo bem.

Polêmicas e o cabelo de Felicity ~ Tá aí algo realmente datado, se querem minha opinião. Não o penteado em si, mas o queFelicity fez de uma temporada para outra: se livrou do longo e enrolado cabelo para adotar um corte bem curtinho (olha o antes e o depois nesta busca do google http://goo.gl/9KjGH). Presenteada já na primeira temporada com o Globo de Ouro de melhor atriz para Keri Russel, a série tinha seus olhos voltados para a segunda temporada, que já em seu início tem essa mudança radical (sério, é essa a sensação) – e a isso foi atribuído a leve queda de audiência daquele ano (a mudança de horário e dia da semana nem foi comentada, claro). O corte de cabelo de Felicity virou piadinha durante todo aquele ano, mas a série seguiu forte, tratando com delicadeza polêmicas menores na história: a troca de curso da menina Felicity, que larga medicina para seguir arte, a introdução permanente de personagem de Javier e de seu doce casamento e, claro, o episódio estranhíssimo em preto e branco com um lugar misterioso chamado “A Clínica” (tão misteriosa quanto “A Escotilha” mais famosa das séries de 2004, risos).

Viagem no tempo ~ E já que estamos na polêmica, Felicity trata, sim, de viagem no tempo – justamente nos quatro últimos episódios da série. Trata-se de spoiler, então não vou entregar muito: quando finalmente Felicity faz a escolha de Sofia – Ben ou Noel – ela recebe a chance de voltar no tempo e descobrir como seria se ficasse com o outro. A série dedica-se a isso, aproveitando para trazer personagens antigos de volta e mostrando como as coisas mudam se uma palha fica fora de lugar no passado (J.J. Abrams com as asinhas de fora, risos). A volta no tempo de Felicity desagradou muito dos fãs mas não foi tão polêmica quanto o corte de seu cabelo. Risos (de novo). Ainda que esta aventura de Felicity tenha sido estranha, acabava evidenciando de vez o desejo de seu criador em trabalhar outros temas. A própria ALIAS, da espiã que vivia causos malucos e cheiradíssimos, tinha Jennifer Garner no papel principal (a atriz participara de vários episódios de Felicity) e era enxergada por Abrams como “Felicity se fosse uma série de espionagem”. Então tá.

De modo que resumir uma série em um post só é igualzinho a usar caneta marca-texto numa leitura longa: o que vem primeiro aos olhos se destaca.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: